Por favor, cuide da mamãe”, de Kyung Sook Shin (Ed. Intrínseca), é
um best seller, com 1 milhão e 500 mil cópias vendidas. O livro conta
a história de Park So-Nyo, 69 anos de idade, perdida na estação de
metrô de Seul quando chegava à cidade para visitar seus filhos.
Marido e mulher correm para pegar o metrô que acabara de chegar. O marido
entra no vagão e, ao se virar, não vê mais a esposa, que foi empurrada para
longe, no meio da multidão. O metrô parte enquanto ela tentava se orientar.
Seu marido carregava a sua bolsa. Uma cena traumática que dá origem a uma
história cujo sucesso deve-se à sensibilidade com que a autora, escritora
coreana, desenvolve temáticas tão delicadas e, ao mesmo tempo, tão
familiares.
O livro é construído no entrelaçar das narrativas dos filhos e do marido de Park
So-Nyo, somadas às da própria personagem, que seguem em um crescendo,
com ricas reflexões sobre o envelhecimento e a (re)descoberta de uma mulher
até então desconhecida. As relações familiares são observadas com
demasiada honestidade, que nos sensibiliza e faz olhar para nossas próprias
histórias pessoais e familiares.
Os conflitos entre filhos, desnorteados com o inédito do trágico
desaparecimento da mãe, explicitam, diversas vezes, o quanto conteúdos
deixados de lado ao longo dos anos e cuidadosamente evitados, normalmente
eclodem em reações de raiva e muita culpa. Tão difícil reconhecer que a mãe
que cuidava de todos na família pudesse adoecer e tornar-se dependente de
todos eles... Mais do que isso, desaparecer de repente, levando tanta história e
emoções até então reprimidas.
Quantas palavras não ditas! Quantos afetos não expressados! A amargura e a
tristeza ante a constatação irremediável. Quem era essa mãe?
Diz a filha Chi-hon:
“Conte alguma coisa sobre Mamãe [...] Não sei nada de
Mamãe, só que ela sumiu... (p.176)”
O destaque para a rapidez nas
transformações culturais e a perda de
importantes tradições e ritos de passagem
milenares, na significação do indivíduo na
sociedade a qual pertencem, provocam
impacto nas relações intergeracionais.
Sentimos como se as adversidades não
pertencessem à dinâmica da vida, acirrando
o temor que adquirimos no rumo natural do
ciclo vital, e que se baseia muito mais no
inédito dos acontecimentos do que a partir de
qualquer controle racional.
A globalização que aproxima culturas, mas, muitas vezes, tenta uniformizá-las,
buscando a unanimidade de pensamentos, promove a propagação de
representações negativas da velhice e do envelhecimento, no ocidente ou no
oriente, como se vê no trecho retirado do livro e destacado a seguir:
Posso ver com clareza a situação. Ninguém gosta de um
velho malcheiroso, quieto, ocupando espaço. Agora
somos um fardo para os filhos, que não sabem o que
fazer conosco. As pessoas afirmam que se pode perceber
de fora qual casa tem um morador velho. Dizem que ela
fede. Mas uma mulher consegue de alguma forma tomar
conta de si e viver, enquanto um homem se torna patético
quando mora sozinho. Ainda que você queira viver mais,
pelo menos não viva mais do que eu. Eu lhe darei um
bom enterro e seguirei... Tenho condições de fazer isso.
(p. 138)
Contudo, apesar da negatividade de alguns olhares, vale ressaltar que o
habitar humano confere singularidade, permitindo o diálogo entre as nossas
vivências: o mundo objetivo complementado pela subjetividade e vice-versa.
Há sempre possibilidade de ressignificações preciosas para a renovação de
sentimentos de pertencimento de cada um e, consequentemente, da sensação
de bem-estar, independentemente da presença ou não de enfermidades.
Por meio dos encantos da narrativa ficcional, a voz da mamãe desaparecida se
faz ouvir. E ela pede perdão por suas exigências e intransigências,
especialmente em relação à amada filha mais nova:
Ouça, querida. Consegue me escutar no meio desse
tumulto? Vim para pedir desculpas [...] Meu amor, minha
filha... (p. 179)
“Por favor, cuide da mamãe” clama por um mergulho no que efetivamente
acreditamos: valores, crenças e sentimentos pessoais e familiares. Excursão
corajosa e impactante, da qual chegamos transformados. Uma emocionante
viagem!
Fonte: portaldoenvelhecimento.org.br/revista/index.php/revistaportal/article/viewFile/353/374