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(*)Alcides Freire Melo - Rep�rter fotogr�fico e cronista em diferentes peri�dicos.
06/05/2013

A f�brica de doces, sonhos, esperan�as...

Manuel, o fabricante de doces acordava cedo, sempre às 4h30min. Todos os dias. Na madrugada, o frio, de tão insuportável, ativa as dores reumáticas, destrói a coragem, abala o humor. Na mente, aparecem palavras confusas. A fé, no primeiro momento, prevalece. Ainda sentado na cama, a mão grossa sobre a testa, ele faz o sinal da cruz para bendizer a vida, melhorar a saúde, sustentar a fé. Num descuido, vem uma maldição silenciosa – sem se importar com a temperatura baixa e o cansaço acumulado por todos os dias-, as dores nas pernas. É inútil praguejar os dois. Frio e cansaço não dão tréguas.

As dores, todas elas, se juntam em um contra-ataque, não por sorte que não venceram. Afinal, o porte e condições físicas do seu Manuel ainda suportam bem as baixas e elevadas temperaturas, peso e outros excessos. Ainda da cama, sai um olhar retorcido para o relógio de parede, a corda, há mais de trinta anos no mesmo prego, da mesma parede direita do quarto de dormir. 4h35min. É muito tarde! Calça os quinaipes de sola e pneu, que de nada adiantavam para aquecer os pés rachados ou protegê-los do orvalho.

Acendia a lamparina a querosene, levantava sobre a cabeça e seguia pelo corredor, parecido com um túnel estreito e escuro, agora meio iluminado com luz amarela até chegar à cozinha – o galo de pescoço pelado solta o primeiro canto do dia. Do pote de barro, na cozinha, retirava com uma lata, a água gelada pela madrugada. Colocava na bacia de alumínio, bastante polida, mas meio amassada de tantas quedas por muitos anos e muito uso. Concheava as mãos, metia na água, enchia e jogava uma grande quantidade d’agua no rosto. O susto! Mesmo depois de fazer isso há mais de 70 anos sozinho, antes era a mãe Dona do Carmo.

Tomava uma xícara de café forte, torrado no tacho com rapadura e coado no pano. Um cigarro enrolado à mão, ainda no dia anterior, é aceso nas brasas remanescentes do último fogo. Desliza a mão pela parede e, sem olhar, pega o velho chapéu de palha. Duas batidas diminuem a poeira da palha e a teia das aranhas, onde certa vez um grilo fez a morada. Beija a imagem de Jesus crucificado na parede, faz o sinal da cruz e enfia o chapéu na cabeça. Uma olhada para trás encontra a esposa Lourdes colocando uns cavacos no fogo para revivê-lo. Já no terreiro de terra batida, soltava grandes baforadas de fumaça que se misturavam à serração. Facão, cordas, balaios e o cachorro seguiam rumo ao mato garoado. Rápido! Era assim que sempre caminhava disputando velocidade com o sol.

O dia precisava amanhecer com as primeiras goiabas colhidas: as mais bonitas, maiores e sem qualquer mancha. As menores e as “passadas do ponto”, seu Manuel deixava pros sabiás, sibites e sanhaçus. O balaio já estava quase no peso que o ombro suportava, mas ainda faltavam as bananas do plantio próximo à parede do açude. Os cachos, por nunca serem pequenos e juntos com as goiabas, ajudavam a encurvar a coluna do doceiro, e ainda o obrigavam a caminhar mais lento, bem devagar. A caminhada de volta aumentava o tempo da ida em meia hora. Às 7h30min, com dificuldades, era aberta e fechada a cancela do terreiro de terra vermelha. O cachorro corria na frente para começar a retirar os carrapichos grudados.

O fogo a lenha já soltava fagulhas de angico e aroeira queimados, e repintava de fuligem as paredes da cozinha. O enorme tacho de bronze lavado, polido com buchas de coco e areia do rio, refletia o fogo e a imagem da esposa Lourdes, sentada no chão para cortar papéis celofanes, depois embrulhar um a um, todos os docinhos. Em pouco tempo já havia mais de uma centena cortada. Da meia porta aberta da cozinha para o quintal aparece seu Joaquim. Camisa entreaberta, peito a mostra, rosto suado e a boca semiaberta. Lourdes corre em “socorro”, segura o balaio de goiabas e arria no chão. Um copo de café com leite, da vaca “mariposa” criada no quintal, ajuda a recompor o fôlego e as forças.

As goiabas, como numa indústria, começam a passar por um processo de “industrialização”. Descascadas, retiradas às sementes e depois passadas no ralo de flandres. Do tacho de cobre, sobre o fogo alto, o cheiro de doce começa a perfumar a cozinha, a casa e a porta da rua. A fumaça arde nos olhos, os pingos de doce saltam e queimam os braços. Está quase no ponto. Tem de “apurar” bem; é doce de corte. Seu Manuel, 80 anos, sabe com precisão o ponto dos doces. Com rapidez, o tacho é retirado do fogo e, mais rápido ainda, derramado no tabuleiro. Endurece rápido. A segunda etapa desta “industrialização” é o corte e a embalagem manual de cada um destes tantos docinhos que têm o destino certo: as bodegas, os bares e a feira.

A escola municipal ficava próxima à casa do doceiro. De lá, sem nenhuma pretensão, se via a chaminé soltar densa fumaça branca. Bastava descer a ladeira, a primeira à esquerda. A escola! Uma construção pequena, com apenas três salas de aulas e poucos alunos faziam o prédio. Às17 horas a sineta de bronze “gritava” alto com os sacolejados animados das mãos da diretora. Em minutos, o corredor do estabelecimento virava pista de corrida; silêncio nas salas vazias. No portão principal era travada a principal e última disputa para saber quem passava primeiro, menos os quatro peladeiros, Duro, Catita, Vira e Canhoto que sabiam, e guardavam em segredo, a distribuição das poucas “aparas” de doces que sobravam no corte, da raspada do tacho ou propositadamente deixadas.

Depois de aprontar todos os docinhos, colocar no cesto de palha preso à garupa da bicicleta, pedalava tranquilo, tocando a sineta da bicicleta, o doceiro Manuel Cursino para entregar aos clientes. Dona Lourdes agora preparava umas trouxinhas com as sobras. Às vezes usava papeis coloridos, outras papel almaço, usado para fazer cadernos, ou quando eram poucas as sobras, nenhum papel. Todas estas sobras e aparas de doces eram distribuídas em segredo, com os maiores jogadores de futebol que o mundo nunca veria em qualquer outro campo ou estádio fora da escola municipal.

Os alunos do turno da tarde passam correndo na rua em direção à casa do tio Manuel e, lá, as aparas de doces já embrulhadas, feito trouxinhas estão à espera dos moleques. Tio Manuel ainda criava abelhas, conversava com elas para aprender o segredo do mel, para entender mais ainda de doçura, paciência e valentia. Seguia os pássaros para encontrar a melhor árvore na produção de mangas, umbus, goiabas e graviolas. Conversava com o próprio espírito, para compreender o depois da morte e chegar até a ela com sabedoria e paz. “Já deve estar ali pela cancela do quintal”, contava em forma de oração sobre a proximidade desta mudança. “Será se existem goiabas por lá?”, indagava sozinho.

Seguiu assim por mais sete anos. Os peladeiros cresceram, trocaram de colégio até que um dia a porteira é aberta depois fechada nas costas do que seria a morte. Manuel Cursino, em sua última mudança, levou toda a fábrica de doces. Ela nunca mais funcionou. O tacho perdera o brilho. O que não pôde ser levado, nem pelo tempo, foi o cheiro dos angicos e dos sabiás queimados. O cheiro dos doces de bananas e goiabas que nunca acabam. Eles são sentidos com a mente e a alma de quem esteve algumas vezes naquela casa, por isso, não têm nunca como acabar.

Fonte: departamento administrativo