Como canta o músico e poeta Arnaldo Antunes: “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer” e tudo indica que o cinema mundial descobriu que essa será a tendência nos próximos anos, quiçá décadas: enfrentar o envelhecimento e continuar “bem-vivendo” a vida.
O professor de cinema e crítico Ataídes Braga diz: “Acho que é uma tendência do cinema mundial. No Brasil isso ainda está engatinhando e começamos a ter vários curtas com essa temática. Os cineastas orientais já exploram o assunto há algum tempo. O mundo está envelhecendo e acho maravilhoso o cinema dedicar seus enredos às pessoas mais velhas. É um sintoma das sociedades modernas”.
A aposentada Alda Braga, de 72 anos, depois da sessão do filme “Amor”, um dos candidatos ao Oscar, que retrata os desafios de um casal octogenário para lidar com as consequências da idade avançada, a família e o relacionamento a dois, contata: “Parece que nos descobriram”.
Amor, longa-metragem do diretor austríaco Michael Haneke, que arrebatou prêmios como o Globo de Ouro e a Palma de Ouro em Cannes, é apenas uma das produções recentes que focam a terceira idade.
Outro filme que conquistou as plateias, E se vivêssemos todos juntos?, com direção de Stéphane Robelin, conta a história de seis amigos na faixa etária dos 70 que decidem montar uma espécie de república, é outro que está em cartaz e vem conquistando as plateias.
Alda ressalta: “Todo mundo passou ou vai passar por isso. Um dia chega a hora. Acho que o mundo acordou, percebeu que está envelhecendo, e por isso o tema é bem atual e deve ser levado para a telona”.
As sessões lotadas dos dois filmes e a repercussão que estão provocando demonstram como as pessoas começam a se interessar pelo assunto. Selma de Carvalho Azevedo Alcici, de 84 anos, cinéfila assumida, assistiu tanto a “Amor” quanto a “E se vivêssemos todos juntos?” e acha extremamente válido que as produções abordem a terceira idade. Para ela, “Apesar de não ter gostado de Amor, nem tê-lo entendido, até porque imaginava outra coisa, considero muito importante falar sobre isso. E tanto é que tem atraído gente de todas as gerações. Mas há filmes e filmes, e preferi “E se vivêssemos todos juntos?”.
A preferência de Selma se explica porque o filme de Michael Haneke é duro, pesado, podemos dizer até cruel. Segundo Ana Clara Brant na matéria “Temática da velhice é cada vez mais atual e atrai público de todas as idades ao cinema”: “A verdade nua e crua e a fragilidade do ser humano presentes na obra de Michael Haneke têm despertado os comentários mais diversos. Há quem ame e quem odeie, mas não se pode negar que o longa, que teve cinco indicações da Academia, reflete a realidade de muitos idosos”.
O psicogeriatra e professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Rodrigo Nicolato, lembra: “Ele revela o amor sem véus, um sofrimento que é real. Como é a vida de quem passa a lidar com aquilo, suas angústias, mas ao mesmo tempo tem muita sensibilidade. Porém, isso não significa que é a realidade de todas as pessoas mais velhas. Vários idosos conseguem envelhecer de uma maneira satisfatória e digna. Não é algo homogêneo, eu mesmo tenho pacientes com 90, 95 anos, que moram sozinhos, vão ao teatro, fazem cursos e não ficam esperando a morte chegar”.
Na interpretação de Ataídes Braga: “Amor é um dos filmes mais densos dos últimos tempos, o que nos leva obrigatoriamente a uma reflexão sobre várias coisas importantes”.
Já o filme “E se vivêssemos todos juntos? é infinitamente mais festivo, mais atual, e tem essa coisa do coletivo. O “Amor” não faz concessões e é mais frio e cerebral.
Para Ataídes, “Amor” é o grande filme do ano. Ele afirma: “Um dos pontos altos dessas produções é ter no elenco atores mais velhos e de um talento fora de série. Pena que não valorizamos esse pessoal tão bom de serviço. O próprio Walmor Chagas, que morreu recentemente, reclamava muito disso. Ele estava muito insatisfeito e deprimido por não ser mais chamado para atuar”.
Ana Clara Brant conta que o crítico está finalizando dois trabalhos com foco no tema: o documentário “Resíduos da memória”, que traz cineastas na faixa dos 70 e 80 anos; e o roteiro de um filme sobre amigos idosos que não se veem há anos.
A atriz mineira Wilma Henriques que está com mais de cinco décadas de carreira e prestes a completar 82 anos, acha importante que produções do teatro, cinema e televisão abordem a questão da velhice. No entanto, acredita que deve haver uma política efetiva com relação aos mais velhos. Ela diz: “Eu, particularmente, não posso me queixar porque nunca faltou trabalho e não diminuíram os convites. Mas é natural que à medida que o ator vá envelhecendo a visibilidade diminua. Isso é normal porque a vida é assim. Começo, meio e fim”.
Assim é viver, assim são todas as coisas: começo, meio e fim. Mas como já dizia Charlie Chaplin: “Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso”.
É, o acaso não existe, tudo tem uma razão mágica que transcende nosso entendimento concreto e racional. Os filmes, cada qual com sua cultura e linguagem próprias falam disso.
Para quem ainda não assistiu, o filme “O autor da carta – título original: The Letter Writer”, direção de Christian Vuissa é outra bela obra que trata das relações intergeracionais, dos supostos acasos, dos encontros especiais que transcendem e das palavras que ficam. Vale conferir.
Fonte: portaldoenvelhecimento.org.br/noticias/filmografia/filmes-e-velhices-a-descoberta-de-uma-nova-relacao.html