Por Ana Canosa*
Recebi vários e-mails como forma de Manifesto sobre a síndrome da mulher cabeça, conceito criado, segundo a jornalista Nina Lemos, pela psicóloga Cláudya Toledo, proprietária do Núcleo de Relacionamentos A2 Encontros. 'Uma agência que forma casais, basicamente', de acordo com a definição do próprio núcleo.
A jornalista afirma que '... essa cúpida defende, nas palestras que ministra em sua A2, a teoria de que fêmeas inteligentes afastam os homens - o que ela chama de síndrome da mulher cabeça'.
De acordo com a teoria da psicóloga, 'as mulheres cabeça' são inteligentes e bem-sucedidas, mas têm profundos bloqueios de relacionamento com o sexo oposto. Ainda segundo a tese, a gente sabe que está sofrendo da síndrome quando 'pensa mais que sente e não utiliza a feminilidade para conquistar e amarrar o homem'. Essa tal mulher cabeça também não tem, supostamente, postura suficientemente feminina. 'Ela quer segurar o homem no papo, como se estivesse negociando, mas o homem cola na mulher, em primeiro lugar, através do visual e gestual feminino' (sic).
Nina Lemos termina sua reportagem assim: 'Moral da história: se seu objetivo é casar, emburreça rapidamente. De uma tacada só, a psicóloga sugere que mulher feliz é mulher burra e que todo homem é uma anta. Só rindo.'
Concordo em gênero, número e grau com a jornalista. Recebi alguns e-mails de amigas dizendo: 'será que a psicóloga não tem razão?' e nem me dei ao trabalho de responder para não perder a amizade. Porque se uma mulher madura ainda acha que homem não agüenta mulher inteligente e independente, é porque anda com os homens errados, com os de pensamentos machistas, onipotentes, oniscientes que mantinham relações com mulheres submissas, que aprenderam com suas mães e avós a serem assim. Questão cultural, é claro.
Só que o mundo caminhou. Se uma mulher ou homem faz do jogo amoroso uma guerra de poder para ver quem vai ceder ao antigo modelo bonita-submissa-burra ou inteligente-feia-independente-mal-amada, está na contramão da humanidade. Ou seja, negando a própria individualidade, buscando relação amorosa para provar teorias próprias ou vingar histórias anteriores, e ainda resistindo ao grandessíssimo prazer de descobrir o outro, devagar, com todas as suas características.
Eu compreendo a Psicóloga e acho que no século passado (Séc XX) passamos todos por um período de adaptação pós-movimento feminista e chegamos a repetir muito essa frase: 'Eles não querem mulheres inteligentes...'. Algumas mulheres realmente endureceram e perderam a ternura, mais por defesa do que por vontade. Mas isso é passado! As mulheres já estão vestidas de rosa, de saia, de flor, é só ver a moda dos últimos dois anos. E muitas estão de calça de exército, de coturno, com um boné charmoso na cabeça. E homens de cachecol, de cabelos longos, e por aí afora.
Papéis rígidos atrapalham a vida e ninguém consegue simplesmente seguir uma fórmula para 'agarrar o outro'. Aliás, esse é, para mim, o maior engano da dona da agência, quando incita os solitários a se fazer passar pelo que não são, não levando em conta suas características individuais e estimulando-os a observar o mundo com olhos bem estreitos. Míopes, sem óculos nem lentes de contacto. Esquece que há homens que adoram mulheres cultas e inteligentes, aliás, a maioria dos homens interessantes é assim.
A psicóloga talvez ainda não tenha percebido que há mulheres cultas e inteligentes extremamente femininas, que usam saia, decote, salto-alto com a mesma tranqüilidade com que escalam montanhas, cheias de magnésio na cara, mosquetões e cordas penduradas. Que há empresárias bem-sucedidas que fazem dança do ventre com a maior sensualidade e enlouquecem de desejo os homens que as assistem.
Mulheres que não são mais rivais de outras, mas amigas de outras, igualmente bonitas e sensuais, com quem trocam experiências no 'ser mulher', sem medo que lhe roubem o namorado (eu conheço pelo menos umas 15 assim!). São mulheres, obviamente, que têm um conceito muito bom a seu próprio respeito e, portanto, escolhem homens mais maduros emocionalmente que não vão sair por aí transando com todas as mulheres, só porque são homens.
As idéias da Psicóloga reforçam o antigo modelito da mulher como objeto a 'ser escolhido', já que tem que agir assim ou assado para conquistar uma parceria amorosa. E cadê o sentimento de 'escolher' também alguém? Um processo de troca, de análise se vale-a-pena, de apaixonamento, de generosidade, de assertividade, de respeitar e ser respeitado, de humanização? Fico pensando como vão para as relações essas mulheres, com fórmulas mágicas na cabeça, para agradar a qualquer custo esses 'homens que tem na cabeça'. E se eles também estão indo para o encontro, com uma 'mulher submissa na cabeça' que espera deles pouca conversa e movimentos certeiros?
Então, nem ele nem ela têm a oportunidade de um encontro espontâneo, leve, solto. E, de repente, estavam justamente buscando alguém com quem podiam compartilhar uma relação de Gente Omino: 'Entre e fique à vontade' (lembram da propaganda?). Não se permitem ser diferentes dos estereótipos que, durante décadas, nos aprisionaram e fizeram milhões de casais infelizes e insatisfeitos, cheios de doenças e dores de cabeça. Para não transar. Para não se entregar. E ser feliz é simplesmente ser o que se é.
*Ana Canosa é psicóloga e terapeuta sexual