Na hora de dar apoio a uma pessoa mais velha, é essencial conseguir se colocar no lugar dela. Mas como? Até aplicativos ajudam
26/06/2012

Ponha-se no lugar da sua avó

Envelhecer está longe de ser uma doença. É bem verdade, que ficamos mais dependentes dos outros. Nossos movimentos vão ficando mais lentos, a memória, cada vez mais focada em cenas do passado, e assistir a um simples filme requer um pouco mais de esforço da vista.

Para atravessar essa etapa, não há fórmula mágica: é preciso ter o apoio das pessoas e das redes sociais que nos cercam. Mas isso, nem sempre, é uma tarefa fácil.

“Uma das maiores dificuldades do ser humano é ouvir o outro. Se você não consegue ouvir, também não consegue se colocar no lugar de ninguém. Com o tempo, essa dificuldade poder virar uma desistência e, em alguns casos, provocar o fim de qualquer possibilidade de diálogo”, explica a psicóloga e psicoterapeuta Ana Maria Duarte.

O trato com alguém de uma outra geração é uma constante vítima desse comportamento. Muitas vezes, pesa o fato da família não estar preparada para assumir a responsabilidade de zelar tanto pela saúde, quanto pelo suporte financeiro. Em outros casos, o que falta é estrutura externa – informações, acessibilidade nas cidades e mais rigor na aplicação do Estatuto do Idoso, por exemplo.

Seja qual for a origem do problema, é preciso encará-lo. Principalmente, se levarmos em conta as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Brasil: em 2050, eles serão 15 milhões - dos quais 13,5 milhões com mais de 80 anos. Mas antes, já em 2025, o país será o sexto do mundo com o maior número de idosos.

“O que assistimos nos últimos anos foi uma mudança e tanto. Hoje, uma pessoa com mais de 60 anos dirige, faz cursos de reciclagem e planos para o futuro. A expectativa de vida mudou e junto com ela a qualidade do cuidado. Com a ajuda das pesquisas, passamos a entender ainda mais as necessidades e as limitações deles”, observa Yolanda Maria Garcia, professora doutora do Departamento de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.

Antes de mais nada é preciso entender que cada idoso tem uma história e enfrenta um tipo de limitação nessa etapa da vida. “Alguns passam por um processo de envelhecimento denominado bem-sucedido, que é caracterizado por ganhos e potencialidades. Outros, por quadros graves, que podem restringir sua autonomia. E há ainda aqueles que enfrentam limitações que podem ser facilmente compensadas. Por exemplo, um déficit na visão pode ser corrigido com o uso de óculos apropriados ou uma cirurgia de catarata”, explica Luciene Miranda, psicóloga e especialista em desenvolvimento humano.

Foi exatamente o que percebeu a locutora paulistana Joana Ceccato. Embora esteja bastante lúcida, a avó, Lore Tendlau, de 101 anos, passou a ter problemas de locomoção após um período internada no hospital. A saída foi comprar uma cadeira de rodas. “Com a cadeira, ela pode sair do quarto e ver as flores do jardim. Para a gente é algo simples, mas para ela é uma das coisas mais prazerosas do dia”.

Mas a relação nem sempre foi assim. A compreensão sobre a necessidade da mãe de sua mãe passou por estágios diferentes. O primeiro foi superar as mágoas do passado e que as afastaram por um bom tempo. Com o fim das brigas e os laços restabelecidos, o segundo desafio foi se colocar no papel da avó. “É claro que isso mudou depois que eu fiquei grávida. Nesse período dependemos mais das pessoas, passamos a ser mais condescendentes com as situações e também a querer cuidar daqueles que amamos”, relembra.

Tentar suprir as perdas naturais ou eventuais da idade, também foi o foco dos filhos e netos de dona Laila Kedhdi Malachias, de 84 anos, de Belo Horizonte. O alerta piscou quando Laila passou a ter dificuldades na leitura de livros e jornais - hábito que ela cumpre religiosamente todos os dias. A primeira opção foi comprar lupas, dessas que encontramos em papelaria. Com o agravamento do problema (ela tem degeneração macular), a família providenciou um vídeo-ampliador. O aparelho permite às pessoas com baixa visão ter acesso aquilo que escapa às lupas ópticas, porque consegue não apenas iluminar, mas regular o tamanho das letras.

Mas além da leitura, tinha uma outra atividade que dona Laila estava aos poucos deixando de fazer: assistir à televisão. Para isso, a família adotou um óculos especial com lente dupla, o mesmo recomendado pela Laramara - Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual (o aparelho é importado, mas a entidade oferece bons descontos para quem apresentar receita médica). “Tanto com o ampliador, quanto com os óculos, ela consegue manter, de alguma maneira, os hábitos. Não 100 por cento deles, mas aquilo que dá prazer a ela”, explica o neto Iago Bolívar.

Se para alguns as limitações é que metem medo, para outros, imaginar as mudanças físicas também é bastante assustador. Pensando nisso, a Casa São Simão, de Blumenau (SC), lançou a campanha “Adote um idoso”. Com ajuda de uma empresa de informática, o asilo criou um aplicativo que simula o envelhecimento. Para isso, basta inserir no site uma foto atual e acompanhar as mudanças físicas daqui a 30, 40 ou 50 anos. A ideia é que, ao se olhar naquelas imagens – com o cabelo branco e a pele enrugada, o usuário possa iniciar uma reflexão sobre o outro e o seu futuro. E, se possível, longe de preconceitos.

MiGCompLinks_C:undefinedO preconceito, aliás, é outro tema em destaque nos estudos sobre o envelhecimento. “Na língua inglesa existe um termo específico para identificar o preconceito contra o envelhecimento, ‘ageist’. Os estudos mostram que trata-se de um comportamento que parte tanto do próprio idoso, como de quem o cerca, e se caracteriza pela desvalorização ou desqualificação da pessoa mais velha, como taxá-la de ‘incompetente’, por exemplo, explica Yolanda.

Além de ações discriminatórias por causa da idade, um outro movimento silencioso já foi diagnosticado pelos especialistas: os idosos não são o público preferencial das empresas de tecnologia. De acordo com Ruth G. da C. Lopes, professora do Departamento de Psicologia da PUC-SP e supervisora do Portal do Envelhecimento, as companhias costumam negar essa demanda. “A desculpa deles é que não vale a pena investir, pois o consumo é muito pequeno. Mas a tecnologia pode criar suportes e facilitar a vida dessas pessoas”, explica. Ruth fala com conhecimento de causa. O site, criado em 2004, é um espaço tanto para pesquisadores e professores, quanto para o público em geral. “No portal, muitos idosos participam dando depoimentos e dividem com outros as experiências e preocupações desta etapa”, conta.

Preocupação é um dos grandes desafios da professora carioca Thaís Ribeiro. Mas assim como na sala da aula, ela precisa ir além e entender que avó - com quem mora desde que nasceu – não é uma criança, mas precisa de atenção na medida certa. “O meu avô morreu há muito tempo e, desde então, ela ficou sozinha. Nos últimos anos, isso só aumentou, já que eu fico quase o dia inteiro no trabalho”, conta. A solidão diminuiu um pouco quando Fátima, tia de Thaís e uma das filhas de Maria Alice, de 84 anos, se aposentou e pode fazer-lhe um pouco mais de companhia. “O que ela precisava, na verdade, não era de uma babá, pois ela sabe fazer tudo. O mais difícil é não ter alguém pra conversar, para compartilhar a rotina. E isso, quem passou a fazer, foi a minha tia”.

Apesar de estar mais confortável com a nova situação, a culpa de deixá-la sozinha ainda atormenta Thais durante o dia. “A gente tem medo que ela vá à rua sozinha, machuque o joelho operado e não tenha ninguém para socorrê-la”, explica. Embora o problema seja real, os especialistas alertam que proteção em excesso também é ruim. “Os estudos sobre esse grupo já provaram isso diversas vezes. Uma boa saída são os centros de convivência. Lá é possível desfrutar de momentos de lazer, educação e cultura. Além de ser uma opção para aquelas famílias que não têm condições de contratar um cuidador. Superproteção tira o gosto da vida. E não é isso o que eles querem nesse momento”, orienta Ruth.

Fonte: delas.ig.com.br/ponhase-no-lugar-da-sua-avo/n1597569236241.html